Das curvas da F1 para as curvas do Portal, agora ele acelera em direção a outro tipo de vitória.
Alex Dias Ribeiro é um dos nomes mais respeitados na história do automobilismo brasileiro. Depois de dividir curvas, sempre de pé em baixo, com pilotos como Emerson Fittipaldi, Niki Lauda e Mario Andretti em seus tempos de Fórmula 1, hoje ele encara as bem menos rápidas curvas do condomínio Portal do Morumbi, onde mora, em sua bicicleta, logo às seis horas da manhã. Aqui, ele encontrou todas as condições para dar uma nova direção à sua vida: mostrar a todos nós, “pobres mortais” entre os quais se inclui, como ser um verdadeiro vencedor “sem ser necessariamente um campeão mundial”. Confira a entrevista.
Morumbi.Net: Como você entrou para o mundo do automobilismo, foi um sonho de infância?
Alex Dias Ribeiro: Foi um sonho de infância. Eu cresci em Brasília, terra do sonho, uma cidade que saiu do nada, de um sonho de um presidente maluco. Maluco no bom sentido, um revolucionário, o Juscelino Kubitschek. Fui para lá com sete anos de idade, em 1957, acompanhando meu pai. Em 1960, quando a cidade ficou pronta, teve uma corrida como parte das festas de inauguração da cidade e eu fiquei tão motivado que decidi: “quando crescer, vou ser piloto”. Dos dez aos dezoito anos, foi a minha fase de sonho, de preparação. Naquela época, você só podia correr com dezoito anos. Não existia o kart. Para correr de automóvel, você tinha que ter carteira de motorista. A saída era correr de autorama, de rolimã, de bicicleta, de skate, de tudo que tivesse roda. E competição era comigo mesmo.
Morumbi.Net: E como você iniciou a carreira de piloto?
Alex Dias Ribeiro: Eu estudava num colégio experimental, onde se explorava muito esse negócio de testes vocacionais, de pensar em uma carreira antes de entrar para a universidade. Foi aí que eu criei o clube de mecânica, junto com alguns amigos. Uma vez por semana, nós íamos a uma revendedora Volskwagen, onde passávamos a tarde trabalhando. Lá aprendemos a mexer no motor, no câmbio, em tudo. E tínhamos acesso ao ferro velho, onde ficavam as peças descartadas. Naquele tempo, meu pai sofreu um acidente muito feio de carro, que destruiu o Fusca que ele tinha. Ficou seis meses no hospital. Quando ele estava conseguindo voltar a falar, pedi que me desse o que havia sobrado do Fusca. Ele me deu as peças e juntando com outras que tínhamos no ferro velho da Volks, construímos o nosso primeiro carro de corrida. Na nossa estréia, chegamos em segundo lugar. A corrida era importante: tinha gente correndo de Porsche, Alfa-Romeo, Renault. E nós, com aquela “lepra”, chegamos em segundo. Foi uma festa muito grande: rádio, televisão, jornal, isso projetou a gente imediatamente e também a nossa oficina, a Camber. A clientela ficou tão grande que tivemos que sair do fundo do quintal e alugar um espaço maior.
Do time de mecânicos dessa oficina, saíram três nomes que chegaram à fórmula 1: o Roberto Pupo Moreno, o Nelson Piquet [três vezes campeão mundial na categoria] e eu. Não foi pouca coisa.
Minha carreira começou na Fórmula Ford, que estava aparecendo no Brasil. Comprei um carro com a ajuda de meu pai e alguns amigos e me destaquei na categoria o suficiente para ser convidado para correr na equipe Hollywod, que era a melhor do Brasil.
A Fórmula Ford foi muito boa para mim. Fui campeão brasileiro, liderei o ranking dos pilotos. Depois, na Fórmula 2, consegui mostrar nível internacional. E foi aí que surgiram os convites para a F-1.
Morumbi.Net: Como foi sua experiência na F-1?
Alex Dias Ribeiro: Foi um desastre. Detestei a categoria. Guiei para três equipes, uma pior que a outra. Para você ter uma noção, o melhor carro que eu pilotei foi o Copersucar, que não era um grande carro. Imagina como eram os outros.
Morumbi.Net: Você dirigia de uma forma agressiva, como diziam?
Alex Dias Ribeiro: É, eu sou um cara muito competitivo por natureza. Hoje, eu já consigo domar esse impulso. Mas quando eu era jovem, era muito, muito atirado. Como eu tinha certeza da vida eterna, morrer não era problema para mim, não. Eu disputava freada com qualquer um e fazia muita loucura.
Morumbi.Net: Por que lhe deram o apelido “O terror da Fórmula 3”?
Alex Dias Ribeiro: Naquela época, a F-3 era muito competitiva. Tinha pilotos muito bons e carros muito parecidos. Os pneus eram iguais para todo mundo e os motores eram quase idênticos. Isso fazia com que os carros andassem muito perto uns dos outros. E como todo mundo era jovem, estava na fase conquistar um lugar ao sol, a disputa era a ferro e fogo e eu disputava mesmo. No meu segundo ano na F-3, corria de March. Meu companheiro também era um corredor muito competitivo. Nem eu nem ele afinávamos nas freadas. O resultado foi que destruímos uns trinta bicos e cinco chassis durante o ano [risos]. O Max Mosley [então chefe da equipe March e hoje presidente da FIA] ficava louco com a gente. Toda segunda-feira, ele chamava a gente no escritório e dava uma esculhambada daquelas.
Morumbi.Net: Como foi sua experiência na única equipe brasileira de fórmula 1 até hoje, a Copersucar?
Alex Dias Ribeiro: Foi bem melhor que na March [risos]. Fiz apenas três corridas pela Copersucar. O carro tinha muitos problemas, alguns eram insolúveis. Mas foi legal pelo relacionamento com o Emerson [Emerson Fittipaldi, bi-campeão mundial de F-1 e dono da equipe]. Ele sempre foi meu herói, meu ídolo. Tenho um respeito muito grande por ele e correr na mesma equipe foi um sonho. Mas foi o fim da minha carreira.
Morumbi.Net: Fale um pouco sobre sua participação nos Atletas de Cristo?
Alex Dias Ribeiro: Sempre tive no meu carro o slogan ‘Cristo Salva’. E colocava no idioma local a cada país visitado. Quando parei de correr, o João [João Leite, ex-goleiro do Atlético Mineiro] e o Baltazar [Baltazar de Moraes Jr, “o artilheiro de Deus”, ex-Grêmio e Palmeiras], fundadores dos Atletas de Cristo, me convidaram para fazer parte do movimento. No primeiro momento, eu recusei. Estava mexendo com fazenda, negócios, trabalhei na construção de cinqüenta carros para a Fórmula Ford. Até que, algum tempo depois, Deus me chamou para assumir os Atletas de Cristo em tempo integral. Isso faz 22 anos. Aquela mesma mensagem que levava no carro eu pude levar para o mundo inteiro, através de sete mil e quinhentos atletas, comprometidos com as mesmas idéias. A morte da minha carreira foi como uma semente que caiu na terra e depois brotou na vida desses atletas. E foi muito bom. Estou mais envolvido com o pessoal de futebol. Estive presente nas cinco últimas Copas do Mundo com a seleção brasileira, levando nossa mensagem, aos atletas da seleção. Fui também a duas Olimpíadas, duas Copas das Confederações e um Panamericano.
Morumbi.Net: Além de ser diretor do Atletas de Cristo, você tem um projeto paralelo, que é o “Mais que Vencedor”. Fale sobre ele.
Alex Dias Ribeiro: “Mais que um Vencedor” não é um projeto, é um conceito que fala de vitória de uma forma diferente do que as pessoas estão acostumadas. No mundo de hoje, vitória é ter grana, mulher bonita - uma para cada ano -, carro do ano, estar na revista Caras e na televisão. Isso é o tipo de vitória que se pode medir com a régua de medir sucesso do mundo. Os parâmetros são Sex, Power and Money. A vitória sobre a qual eu me proponho a falar é uma vitória que independe disso tudo. Uma vitória ao alcance de todos nós, simples mortais. Quando minha carreira terminou, eu voltei à condição de simples mortal e me dei conta de que um simples mortal pode ser um vencedor sem ser campeão do mundo. Foi aí que eu desenvolvi esse conceito ‘Mais que Vencedor’. Um conceito de vitória diferente, focado na essência do ser humano. Afinal, tudo que se conquista fica aqui e qualquer projeto de vida que não transcenda essa existência terrena está fadado a terminar num túmulo.
Morumbi.Net: Você pisa fundo nas coisas do bairro ou o Morumbi é apenas um pit-stop para você?
Alex Dias Ribeiro: Eu convivo bastante, aqui é a minha casa. Graças a Deus, pude comprar isso aqui [Alex mora no Edifício Flaboyant do condomínio Portal do Morumbi] no tempo das vacas gordas. Sou um privilegiado por morar aqui. Curto de montão. Todo dia, eu corro, acordo às seis da manhã, ando de bicicleta aqui dentro. Isso aqui é um paraíso, uma ilha dentro de São Paulo. É uma benção muito grande poder morar aqui. Quando descobri o Portal, isso aqui era no meio do mato. Eu morava na Inglaterra e passava novembro, dezembro e janeiro aqui. Era o período que eu corria atrás dos patrocinadores. E aí ouvi falar disso aqui [referindo-se ao condomínio Portal do Morumbi]. Estava procurando um apartamento para comprar. Peguei minha motocicleta e vim para o Morumbi, que ficava no meio do mato. Quando entrei no Portal, fiquei deslumbrado. Mas isso ficou às moscas, o Alfredo Mathias [proprietário da empresa que construiu o condomínio] faliu e morreu de desgosto. E eu vi o bairro crescer, que nem eu vi Brasília.
Morumbi.Net: E você gosta de dirigir no bairro?
Alex Dias Ribeiro: Hoje está muito ruim de dirigir por causa do trânsito. Eu ando mais de motocicleta do que de carro. Não só aqui como em São Paulo inteira.
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