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Vinho em tempos de crise

E a crise chegou !!! Se vai ser marola ou tsunami, ninguém se arrisca a prever. O fato é que em 2009 as coisas não estarão iguais a 2008, obrigando os apreciadores de vinhos a rever conceitos e procurar alternativas. Afinal, aconteça o que acontecer, ninguém cogita de ficar sem o vinho nosso de cada dia. Aliás, parafraseando Napoleão Bonaparte, em sua célebre frase sobre champanhe, “Na vitória a merecemos e na derrota dela precisamos”, vamos precisar de muito vinho para superar os piores momentos.

Nesses difíceis momentos, a diversidade e a generosa oferta de novos e criativos vinhos certamente irá nos ajudar a descobrir opções para preencher nossos melhores momentos, com muita qualidade, sem necessariamente gastar verdadeiras fortunas com vinhos, cujos preços estão artificialmente inchados por notas de megavalidadores como o americano Robert Parker. O mesmo Parker que num momento de sinceridade afirmou que nenhum vinho do mundo custa mais do que 30 dólares americanos para ser produzido (já computados todos os custos e independente de sua origem).

Nos momentos de euforia dos últimos anos, vinhos foram vendidos por preços descolados da realidade, comprados por pessoas que fizeram fortuna fácil, agora sabemos a que preço, em disputados leilões de vinhos em todo o mundo. Chegou-se ao absurdo de se pagar 156.000 dólares por uma única garrafa de vinho, que depois se constatou ser falsa! O episódio, que beira o grotesco, foi magnificamente relatado num dos melhores livros do ano, The Billionaire’s Vinegar, de Benjamin Wallace, lançado no Brasil com o título de “O Vinho Mais Caro da História”.

E nós, simples mortais, que apenas queremos apreciar vinhos honestos e de boa qualidade, com preço compatível com nossas possibilidades financeiras, como ficamos? Bem, basta um pouco de conhecimento e teremos excelentes vinhos à disposição, em muitos, para não dizer em todos os países produtores.

Algumas regiões vinícolas nos países tradicionais merecem ser analisadas com atenção. Começamos pela França, que tem excelentes vinhos no Languedoc-Roussillon, acessíveis e de boa qualidade, com ótima relação preço/qualidade.

Ainda na França, atenção para os agradáveis vinhos do Vale do Loire, que sempre surpreendem pela qualidade, e pela diversidade de estilos. Como são frequentemente esquecidos, têm preços dentro de padrões muito civilizados.

Na Espanha, regiões não tão prestigiadas como La Mancha e Valdepeñas nos dão boas opções, especialmente depois que alguns famosos enólogos espanhóis começaram a produzir ali vinhos modernos e criativos.

Ainda na Espanha, não se esqueça das deliciosas cavas, vinhos espumantes de alta qualidade por preços incrivelmente baixos.

Em Portugal, bons produtos podem ser encontrados na Bairrada, Ribatejo e Estremadura, produzidos com uvas nativas como a Baga e a Touriga Nacional, muitas vezes associadas a uvas francesas.

Na Itália, busque os vinhos do esquecido sul, em regiões como a Puglia, a Campania e a Sicília, onde ainda é possível encontrar preciosidades subvalorizadas.

Na Alemanha, busque vinhos de Riesling, de produtores não atingidos pela onda de ganância que se espalhou em muitos países.

No Novo Mundo, fique de olho nas ofertas da África do Sul, da Austrália e da Nova Zelândia, especialmente de novos produtores, que estão chegando ao Brasil de forma constante e com excepcional qualidade.

Na América do Sul, porto seguro para os brasileiros por conta das facilidades alfandegárias, destacam-se os vinhos argentinos, quase imbatíveis no quesito preço/qualidade, os chilenos e os uruguaios.

Por fim, prestigie os bons vinhos brasileiros, alguns muito acessíveis, agradáveis e modernos, como o Salton Volpi e o Miolo Fortaleza do Seival.

Usando conhecimento e criatividade, vamos superar o pior momento e então poderemos novamente voltar os olhos para os sempre desejados Bordeaux (que, diga-se de passagem, já estão cerca de 30% mais baratos) ou para inacreditáveis ícones da Borgonha, vinhos que sempre serão objetos de desejo, com ou sem crise.

Arthur Azevedo

 

O Autor

Arthur Piccolomini Azevedo

Arthur Azevedo é diretor da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP) (www.abs-sp.com.br), diretor e editor da revista Wine Style (www.winestyle.com.br), jornalista especializado em vinhos, palestrante e consultor da Artwine (www.artwine.com.br). Twitter: @artwine77

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