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Aquecimento global - ameaça para os vinhos?

No momento em que sentimos na pele, literalmente, os efeitos do intenso calor do verão brasileiro, fica difícil esquecer tudo o que tem sido dito sobre os efeitos do aquecimento global. Há muita controvérsia sobre o assunto, não faltando aqueles que dizem não existir motivo para grandes preocupações e  que tudo não passa de mais um dos ciclos pelos quais a Terra já teria passado outras vezes. Entretanto, renomados cientistas têm sólidos argumentos para comprovar a tese que, pelo menos para as próximas gerações, o clima ficará cada vez mais quente. Por via das dúvidas, não custa nada tomarmos medidas para que o cenário futuro não seja catastrófico. No entanto, no momento, nos interessa os efeitos das mudanças climáticas, ainda que muito sutis, sobre o cultivo das uvas e por conseqüência, no caráter dos vinhos.

Grande especialista no assunto, o espanhol Pancho Campo esteve recentemente no Brasil e, em palestra, discorreu sobre como as alterações climáticas estão alterando o panorama vitivinícola mundial. As causas do aquecimento global estão sendo amplamente estudadas, sendo a mais importante delas a emissão descontrolada de gases para a atmosfera, criando o chamado “efeito estufa”. Pancho disse que a temperatura vem aumentando um terço de grau Celsius a cada 10 anos, o que representa um aumento de 3º C nos próximos 100 anos, e isso é muito mais rápido do que aconteceu na Terra nos últimos 10 mil anos. Esta velocidade impede a adaptação de várias espécies e ecossistemas. Os principais gases envolvidos na produção do chamado “efeito estufa” são o dióxido de carbono (CO2), metano, hexafluoreto de sódio, óxido nitroso, perfluorcarbonetos e hidrofluorcarbonetos. Estes são os seis gases relacionados no Protocolo de Kyoto, sendo a maior parte deles produzidos diretamente por atividades do homem. Por conta disso o clima está cada vez mais imprevisível e bastante diferente do que costumava ser. Regiões que costumavam ter longos períodos de inverno, com significativa precipitação de neve, estão se tornando cada vez mais quentes, prejudicando, por exemplo, a prática de esportes na neve e causando grandes prejuízos a toda uma cadeia de atividades a eles relacionadas.

Para a indústria do vinho, segundo Pancho Campo, as mudanças já estão sendo sentidas, de diferentes maneiras. A primeira, mais óbvia, é a elevação de temperatura em diversas regiões vinícolas, mudando a característica dos vinhos de forma sensível. Depois, o dióxido de carbono (CO2) tem efeito fertilizante sobre as plantações, aumentando a produtividade das videiras (e conseqüentemente diminuindo a qualidade das uvas). Por fim, há o problema da disponibilidade de água, que diminui com o calor.

Em algumas regiões mais frias, onde as uvas sempre tiveram dificuldade para amadurecer, o aumento de temperatura está sendo até benéfico. De fato, na Borgonha, uma região na França onde o clima sempre foi mais frio, um pouco a mais de calor foi muito bem vindo. Com isso a exigente Pinot Noir tem conseguido amadurecer com perfeição, o que se reflete diretamente na qualidade dos vinhos. Outras uvas difíceis de amadurecer, como a Carmenère e mesmo a Cabernet Sauvignon, vão encontrar mais lugares no mundo onde possam expressar todas as suas qualidades. No Brasil, o maior benefício será na Serra Gaúcha, região onde a Cabernet Sauvignon costumava exibir caráter herbáceo e verde. Uma pesquisa recente, realizada em 27 regiões vinícolas em diferentes países, mostra que, de modo geral, por enquanto o aquecimento global tem se mostrado benéfico para a maioria dos vinhos. Mas no futuro o panorama poderá ser bem diferente devido às razões expostas anteriormente.

Em regiões onde o clima já é muito quente, a situação se torna mais grave. Com a tendência atual de se colher as uvas tintas mais tardiamente, para assim esperar o amadurecimento dos taninos, há um acúmulo maior de açúcar, o que faz com que o teor de álcool dos vinhos aumente muito acima do razoável. Outros efeitos do calor sobre as uvas são a diminuição da acidez, a antecipação do período da colheita e a maior predisposição à ação de pragas e doenças agrícolas. As uvas sobremaduras, sob a ação do calor, podem dar aos vinhos um caráter de “cozido”, com a consequente perda dos melhores aromas e sabores.

As soluções, a curto prazo, são procurar novas áreas de plantio e também desenvolver novos clones e porta-enxertos, visando uma adaptação às novas condições climáticas. A longo prazo soluções mais duradouras terão que ser buscadas e isso depende basicamente da boa-vontade de governos e da colaboração de todos. Temos que pensar não só nos vinhos, mas também nas gerações futuras, e isso já é tema para outras reflexões, mas é bom não nos esquecermos que muitos dos efeitos descritos afetarão diretamente a sobrevivência do ser humano e aí a questão é muito mais grave.

 

O Autor

Arthur Piccolomini Azevedo

Arthur Azevedo é diretor da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP) (www.abs-sp.com.br), diretor e editor da revista Wine Style (www.winestyle.com.br), jornalista especializado em vinhos, palestrante e consultor da Artwine (www.artwine.com.br). Twitter: @artwine77

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