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Madeira, um vinho de rara personalidade

A Ilha da Madeira, descoberta em 1418 pelo navegador português João Gonçalves Zarco, é a fonte de um dos mais interessantes e subestimados vinhos fortificados, raramente lembrado até por especialistas no assunto. Este vinho era produzido originalmente com a uva Malvasia Cândida, que foi trazida da Grécia para a Ilha e plantada por ordem do infante Dom Henrique, por volta de 1.500. Por ser uma fonte de comida fresca e água, a Ilha da Madeira era um movimentado porto, onde navios portugueses e ingleses faziam escala para abastecimento. Claro que estes navios também transportavam o vinho produzido na Ilha da Madeira, que no início de sua vida era um vinho normal, mas que passou a ser fortificado, para suportar as difíceis condições a que era submetido durante as viagens. O transporte do vinho nos séculos 16 e 17 era feito em tonéis de madeira, que também serviam de lastro para as caravelas.

Após as viagens, geralmente muito longas, atravessando o Equador e os Trópicos, o vinho não comercializado era devolvido aos produtores, que rapidamente perceberam se tratar de um vinho de alta qualidade, muito disputado pelos clientes e conhecido como “torna viagem”. As características do vinho, precocemente envelhecido e com um certo toque de “cozido”, tinham como causa as altas temperaturas alcançadas nos porões dos navios (até 60 graus centígrados). Os vinhos tinham acentuado toque de oxidação, o que os tornava ainda mais interessantes.

Com o desaparecimento das caravelas, as viagens se tornaram mais rápidas e as condições naturais para a produção do vinho da Madeira praticamente desapareceram. A alternativa encontrada foi tentar reproduzir as condições originais. De início foram utilizados grandes armazéns, utilizados como estufas, aquecidos com fogueiras, onde eram colocados os tonéis com o vinho. Outra alternativa, logo abandonada, era deixar os tonéis ao sol.

Atualmente existem várias opções para se obter os resultados desejados, tais como usar tanques de aço inoxidável ou de cimento com revestimento de epóxi, por onde circula água aquecida a 70 graus, por um período mínimo de 3 meses, ou ainda colocar as barricas com o vinho nos chamados armazéns de calor, aquecidos pela circulação de água quente ou vapor dos canos que circundam todo o ambiente. Uma forma mais natural de envelhecer os vinhos é colocá-los em grandes barris de carvalho, por longos períodos (10 ou mais anos), obtendo-se, como resultado, os excelentes “vinhos de canteiro”.

Os melhores vinhos da Madeira são produzidos com as castas nobres Sercial, Verdelho, Boal e Malvasia, se constituindo numa ótima companhia para sobremesas e também muito apreciados como aperitivo (especialmente os dois primeiros, um pouco mais secos). Lamentavelmente, estes vinhos são a minoria absoluta da produção, hoje quase toda centrada na uva Tinta Negra Mole, que dá origem a vinhos sem expressão ou grandes predicados. Este vinho, facilmente encontrado em todo o Brasil, é seguramente o responsável pela imagem desfavorável que o Madeira tem hoje junto ao grande público.

 

O Autor

Arthur Piccolomini Azevedo

Arthur Azevedo é diretor da Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SP) (www.abs-sp.com.br), diretor e editor da revista Wine Style (www.winestyle.com.br), jornalista especializado em vinhos, palestrante e consultor da Artwine (www.artwine.com.br). Twitter: @artwine77

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